sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Particularidades locais - transportes

Sempre ouvi que os metrôs de São Paulo são muito mais limpos que os da Europa. Que na Europa as pessoas cheiram mal e que é insuportável o cheiro do metrô. Tudo isso é, em parte, verdade. Mas morando aqui, ainda que há poucos dias, percebi que isso varia muito, de acordo com a estação e o tipo de transporte que se usa, já que aqui existe metrô, RER, trens de periferia e ônibus (nunca peguei um, já que faço tudo de trem e metrô).

Algumas estações são a morada dos mendigos. Eles vivem com seus sacos e cobertores dormindo pelas escadas ou mesmo nos bancos das plataformas. Essas estações costumam cheirar bem mal. Muitas outras são limpas. Algumas são tão grandes, mas tão grandes, que abrigam, em pisos superiores, shopping centers. Hoje mesmo fui a um supermercado giganteeeeesco que fica dentro de um centro de compras giganteeeesco que fica em uma estação giganteeeesca. Demorei horas pra comprar algumas coisas, já que eu não conhecia nada e tudo era muito gigante. Mas valeu a experiência.

Algumas estações são bonitas, outras não têm muita graça. Na grande maioria delas há cartazes de propagandas de tudo o que se possa imaginar. Tem uma propaganda que se repete em várias estçaões e que eu acho muito engraçada -> todos dizem que franceses são discretos sobre suas vidas particulares, sobre sua vida amorosa etc; em várias estações há cartazes gigantes que são a propaganda de um colchão, e o slogan é algo do tipo "é impossível fazer amor se não for num XXX (nome do colchão). Pra quem é discreto a propaganda é bem explícita...

Outra curiosidade dos trens aqui: muitos vagões, quando param na estação, devem ser abertos, seja por quem está dentro deles, sejá por quem está do lado de fora. Quando cheguei foi um choque pra mim, e a primeira vez que tive que abrir uma porta de trem levei bem uns 15 segundos pra fazer isso... Às vezes é preciso apertar um botão; outras vezes é preciso levantar uma alavanca. A porta não abre a qualquer hora, é claro, mas antes de o trem parar já é possível abrí-la e meio que saltar na plataforma enquanto o trem termina de parar.

Como em qualquer lugar, os metrôs têm horário de pico. Mas, mesmo assim, até hoje não peguei nada parecido com "estação Sé às 6 da tarde em São Paulo". Não sei se isso nunca acontece, mas imagino que a quantidade de trens disponíveis dê conta de manter sempre um certo fluxo. No trem que vem aqui pra minha banlieue eu sempre consigo sentar, porque ele nunca está cheio, já que não é uma linha principal.

Talvez sejam mais sujos os trens de Paris, mas certamente são mais funcionais e pontuais. Uma coisa que adoro aqui é que quando você chega na plataforma tem sempre um painel dizendo em quanto tempo chegará o próximo trem. Pra pegar o trem aqui perto chega a demorar 10, 15 minutos, às vezes. Mas os metrôs demoram 2, 3 minutos. E é preciso prestar atenção em certas coisas: pra chegar aqui em casa, duas estações antes pego o trem na direção Paris-St. Lazare. Mas nessa plataforma onde passa esse trem, que vai até St. Lazare parando em várias estações de banlieue (inclusive na minha), também passa o trem Paris-direct, que vai direto, sem paradas, até a última estação. Pra saber qual é o trem certo é preciso olhar no painel qual é o trem que se aproxima, de acordo com o horário. Quando os trens estão atrasados e vão demorar um pouco mais por causa de algum problema na linha, uma voz avisa na plataforma.

Outra coisa que acontece bastante por aqui são pedintes e artistas no metrô. Exatamente como em São Paulo, vez por outra entra uma criança, um adulto ou um idoso e começa a pedir a atenção de todos no trem. Percebi pelo sotaque de muitos deles que são estrangeiros, provavelmente do mundo árabe, pelas feições. Às vezes, como em São Paulo, eles deixam papéizinhos que explicam a difícil situação em que se encontram e pedem uma contribuição. Os artistas, por sua vez, costumam entrar no vagão com algum instrumento e simplesmente tocam, no meio daquela gente que não chega nem a esboçar um sorriso, por mais engraçada que possa ser a música ou aquilo que dizem. Uma francesa me disse que ninguém ri porque eles querem dinheiro e ninguém quer dar. Hoje me disseram também que sorrir por aí é sinal de "estar dando mole" pros outros. Mas nada é tão dentro dos limites assim, tudo varia. Esteriótipos acabam reduzindo o mundo a um pontinho pequeno e sem graça demais. O que vale é ver com os próprios olhos.

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